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No último final de semana, 15 e 16 de junho, o Museu da República (MR) recebeu o III Festival Interuniversitário de Cultura, o FestFIC 2019. Durante dois dias inteiros, o público aproveitou a programação gratuita com mais de 30 atividades variadas: de apresentações musicais a oficinas de dança, espetáculos teatrais, rodas de conversa e muito mais. Todas em defesa da arte e da cultura como bens públicos.

“Entendemos a arte como patrimônio público, portanto um patrimônio de todo o povo. Por isso, as universidades vêm aqui hoje encontrar com vocês em uma praça pública, em um evento público e gratuito. Arte e cultura não são mercadoria. Construir juntos, universidade e sociedade, um pacto em defesa da arte e da cultura públicos: é essa a proposta do III FestFIC”, afirmou o coordenador do FCC, Carlos Vainer na abertura do evento.

A edição deste ano, teve a participação de cinco das 12 Instituições de Ensino Superior (IES) que integram o FIC/RJ: UFRJ, UERJ, Unirio, CEFET e IFFluminense. Além dos Grupos e Projetos Artísticos de Representação Institucional (Garins e Parins) da UFRJ, o festival contou com apresentação de grupos e projetos de cada uma das IES.

“Eu estou muito feliz. Eu frequento esse jardim há muitos anos e é sensacional, principalmente para as crianças. A gente vê o sorriso no rosto das pessoas, dos jovens, dos idosos. Minha família está toda aqui, minha tia de 80 anos, meu netinho”, contou Marta Raposo, moradora do bairro do Catete, enquanto assistia à apresentação do Bandão do CEFET, que abriu as atividades do palco principal no sábado. 

“É a primeira vez que a gente faz uma apresentação assim ao ar livre, em um espaço da cidade. Eu acho importantíssimo ter ações desse tipo, a gente valorizar a cultura e estar com as instituições juntas, de mãos dadas”, disse Daniela Spielmann, professora de música, saxofonista e coordenadora do projeto que existe há cinco anos e, pela primeira vez, se apresentou em praça pública.

“Muito importante ter projetos que convidem a gente para trazer a arte que é produzida dentro do colégio público federal para mostrar às pessoas que tem coisas incríveis sendo produzidas lá”, comentou Vitor Colman, integrante do projeto e aluno do CEFET, unidade Maracanã.

“Estamos ali [no palco] também para protestar contra o que a gente passa como secundarista de escola pública federal”, conta Esther Paixão, uma das vocalistas da banda. Ela explica que, além de divertir, a banda procura deixar sua mensagem com canções de crítica à sexualização das mulheres e ao machismo, por exemplo. Para Vitor, além de divertido, o projeto é importante por ser inclusivo. “É para todo e qualquer aluno dentro do CEFET”, conta.

Foto1 2Coordenador Carlos Vainer (esq. acima) | Bandão do CEFET (dir. acima) Orquestra de Rua (esq. abaixo) | Salão Nobre lotado (dir.abaixo)

A música como ferramenta inclusiva também esteve presente na exibição de outros grupos como o Cancioneiros do IPUB e o bloco carnavalesco Tá pirando, pirado, pirou!, ambos formados por usuários dos Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), além de colaboradores e músicos profissionais.

Uma das usuárias e hoje colaboradora do projeto, Munique Mattos, que é também compositora e uma das cantoras do bloco Tá pirando, lembrou que além de cultura, a arte tem papel terapêutico e afetivo. A artista executou junto ao grupo um de seus sambas, intitulado Lástima, que compôs logo após ser noticiada a morte de Marielle Franco. “Aquelas palavras eram palavras desorganizadas dentro de mim, sensações desorganizadas que de repente se arrumaram em uma poesia. Fazer música é mais ou menos isso”.

Focado no samba, o grupo apresentou no palco principal canções populares também de outros gêneros. Munique explica que o repertório é resultado da atividade coletiva feita junto aos usuários de lembrar sambas e músicas marcantes, desde composições autorais até clássicos sertanejos.

Diverso em linguagens e público, o festival trouxe a integração das artes populares às clássicas. O Salão Nobre do Museu da República recebeu estudantes e musicistas eruditos, tanto em apresentações solo, como no caso do projeto Musific, da UERJ, quanto em apresentações de grupos de câmara como o Quinteto Experimental de Sopros, formado por alunos da Escola de Música da UFRJ e a Orquestra de Rua, formada por alunos de música da UFRJ e da Unirio.

Esta última, mesclando instrumentos eruditos como violino e violoncelo com a execução de ritmos populares como o funk. Composta por jovens negros - três mulheres e um homem, a orquestra nasceu do encontro dos quatro em um projeto social. Durante a apresentação, o público foi presenteado com clássicos como Serenata Noturna, de Mozart,  e releituras de canções atuais como Vai Malandra, da cantora Anitta.

Ao executar o Rap da Felicidade em seu repertório, Glaucia Maciel explicou que o grupo procura “fazer a música de objeto de afirmação das nossas raízes nesse espaço”. Para Juliane Souza, outra integrante, a combinação entre erudito e clássico facilita a aproximação das gerações mais novas: “A gente mostra para crianças e jovens que instrumentos eruditos não servem apenas para tocar música clássica. Tem como tocar música popular: funk, jazz, rock, pop e todos os estilos”.

Os jardins do Museu também receberam atividades nos dois dias de festival. Houve apresentações da Mostra Mais de Teatro da UFRJ, que aconteceram também no auditório do MR. Outras atrações nos jardins foram a Companhia de Dança Contemporânea da UFRJ, a oficina de Tai Chi Chuan e a exposição Acoplamentos, promovidas pela UERJ além de uma oficina de charme, oferecida pelo IFRJ no segundo dia do evento. “O que mais me chamou atenção foi ver como os artistas se orgulham em carregar o nome das suas instituições”, revelou Victor Medeiros, estudante do curso de Licenciatura em Matemática da UFRJ.  

Foto 2 2Sodade Brasilis (esq. acima) | Mostra Mais de Teatro (dir. acima)
Cia Contemporânea de Dança da UFRJ (esq. abaixo) | Corais UERJ (dir.abaixo)

No bistrô, o público pode participar de atividades intimistas como roda de conversa com artistas de rua de rua, performances artísticas, a feira de geração de renda e saúde mental e ainda aproveitar para degustar as opções oferecidas pelos alunos do curso de gastronomia da UFRJ. “Eu adorei a possibilidade desse espaço que é o museu ser um espaço cultural de outra ordem, com vários tipos de música”, contou Jane Felipe, professora do curso de Pedagogia da UFRGS, que reforçou ainda o valor do evento para fortalecer o cenário da educação e da cultura no momento em que as áreas vêm sendo tão atacadas.

Foto 3Charmeando no Museu (IFRJ)(esq. acima) | Cia Folclórica do RJ/UFRJ (dir. acima) | Público assiste à Cia Contemporânea (esq. abaixo) | Público dança no encerramento do FestFIC (dir.abaixo)

O palco principal recebeu ainda a companhia NUDAFRO, o grupo de choro Sodade Brasilis, da UFRJ, os corais da UERJ e o Núcleo Experimental de Dança do CEFET. Fechando a programação, os artistas pernaltas do grupo Brincantes Gigantes da UERJ e a Cia. Folclórica da UFRJ fizeram um cortejo pelos jardins do parque até o palco e encerraram a festa.

“Temos que agradecer ao diretor do Museu da República, Mário Chagas, que nos recebeu de braços abertos, como os usuários desses jardins nos receberam. Eu acho que agora isso vai virar a nossa casa”, brincou Carlos Vainer, coordenador do Fórum de Ciência e Cultura.

Segundo ele, ao todo o festival reuniu mais de 500 pessoas, contabilizando equipe de produção, artistas e público e foi classificado como “obra coletiva” pelo coordenador. “O festival está acabando, mas não nossa luta. Todos juntos, por uma arte e uma cultura, livre e independente como expressão do nosso povo. Vamos em frente”, encerrou Vainer.


Reportagens e texto: Victor Terra

Fotografia: Bira Soares e Eneraldo Carneiro 

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