Entrevista com a prof. Heloisa Buarque de Hollanda

 

“O projeto do PACC é sair dos muros da Universidade,
não é levar conhecimento a outro lugar,
é receber conhecimento de outros lugares”

 
 
     
 
     
 
 

Heloisa Buarque de Hollanda é professora titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea - PACC/UFRJ, e diretora da Aeroplano Editora & Consultoria.

 
Foto: Bira Soares    
     
ZILDA MARTINS
Jornalista responsável pelo Setor de Comunicação do FCC/UFRJ
     

Espaço guarda-chuva: é assim que a coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea, Heloisa Buarque de Hollanda, identifica as atividades do PACC. Ela explica que as pesquisas são desenvolvidas a partir da multiplicidade de saberes de dentro e de fora da Universidade. Ressalta que o PACC tem um programa de pós-doutorado, único na UFRJ, e justifica afirmando que o intelectual precisa disso, porque é uma figura triste e esquisita: “Ou briga ou não tem com quem conversar”. Sobre o Forum de Ciência e Cultura da UFRJ - FCC, ela diz que deveria ser um centro de debate permanente com a sociedade. E acrescenta: O FCC é a ONU da UFRJ. Heloisa fala, ainda, sobre política cultural, globalização, periferia, e diz que é preciso dar viabilidade, interlocução e colocar as pessoas juntas.


FCC – Você poderia falar sobre as atuações do PACC - Programa Avançado de Cultura Contemporânea, e a que público está aberto?
HBH - O PACC é um apelido para Programa Avançado de Cultura Contemporânea. Esse programa a gente inventou porque precisava de um espaço na Universidade para discutir as tendências de ponta, essas questões que não pertencem a disciplina nenhuma. Não pertencem nem à Faculdade de Letras, nem à Economia, nem à Política, nem à Comunicação. São esses objetos novos, esses movimentos que estão acontecendo nessa última década. O PACC é de 1993. Então, a idéia era abrir um espaço guarda-chuva para abrigar tudo que era projeto de pesquisa dedicado a pensar questões da América Latina, da globalização, da democratização, da condição popular, da relação da Universidade com a sociedade, dos novos movimentos sociais, dos novos sujeitos sociais, da mudança econômica e política. Enfim, todo esse ‘rolo’ que foi o mundo de 89 para cá. Com essas mudanças, muito convulsivas, achamos que era legal abrir um espaço para discussão, para produção de conhecimento, e aí descobrimos algumas coisas. Uma delas é que uma disciplina só não ia dar conta, especialistas não iam dar conta, e o que a gente percebeu é que para produzir um conhecimento novo, nesse momento, eram importantes saberes compartilhados. Então, chamamos antropólogos, historiadores, gente da Letras, gente da Sociologia, da Comunicação.

O PACC tem um perfil interdisciplinar, tem essa conversa interdisciplinar, mas ela ainda não basta. A gente percebeu que precisava de outros saberes, e não universitários, para poder adiantar essa conversa e esse pensamento sobre a atualidade. Com isso, o PACC se abriu muito para conversar e ter uma interlocução direta e forte com os ativistas, com as diversas ONGS que tem por ai, com esses movimentos culturais de periferia, com os sindicatos. Uma coisa que eu achei muito legal é que o PACC abriu espaço para as agências que patrocinam os projetos sociais. Então o povo do BNDES, da Petrobrás vem para discutir, exatamente, o que seria o projeto social, qual a eficácia disso, o que é isso hoje. Em princípio, o PACC é um espaço totalmente aberto para diversas pessoas, juntas, compartilharem e tentarem fazer um esforço supremo para ver se um dia a gente entende o que está se passando.

FCC Quais os projetos do PACC e linhas de pesquisa?
HBH - Fizemos duas coisas com o PACC: em primeiro lugar, a gente percebeu que é importantíssimo fazer o registro do contemporâneo. O PACC já tinha começado no CIEC -, que é um outro centro de pesquisa: Centro Interdisciplinar de Estudos Culturais, do qual fui coordenadora -, a fazer alguns acervos produzidos, não um acervo que vai recolher documentos, mas a pesquisa produz documentos para entrarem no acervo. A gente tem, por exemplo, o Projeto Abolição – pelo qual meu coração bate mais forte - feito em 1988, quando a abolição fez cem anos no Brasil. Para fazer a coleção, colocamos, no Brasil inteiro, antropólogos, historiadores, profissionais de vídeo e de áudio e a imprensa para cobrir tudo o que se fez no Brasil em relação à questão racial. Lembro a passeata do dia 13 de maio no Rio. Tem no nosso acervo a visão da TVE, da Globo, e do antropólogo que trabalhava pra gente. É hilário, parecem três passeatas diferentes. Então, a gente tem um material riquíssimo, trabalhado de novo com esse princípio básico do PACC, que são vários saberes olhando a mesma coisa.

Temos todos os cartazes que foram produzidos, principalmente os pichados, aqui no campus da Praia Vermelha. Por exemplo, a gente traz na coleção coisas terríveis, sinistras: cartazes de liberação negra, do Movimento Negro, pichados, com pichações racistas terríveis. E estou falando, não é de outro lugar, é da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Zona Sul, Praia Vermelha, classe média alta. Tudo pichado, racista. Olha, a gente tem uma coleção preciosa sobre como, em 1988, as relações sociais eram encenadas no Brasil. Como é que se viam, se viviam e se experimentavam as diferenças raciais. É um acervo que eu tenho um orgulho gigantesco de ter. Depois fizemos outro: Memórias do Saara, que é aquele bairro de árabes e judeus, no Centro do Rio. Temos também tudo sobre o Saara: rádio Saara, entrevista com todo mundo. Temos, ainda, algumas publicações, chamadas papéis avulsos, que eram todas as palestras, as conclusões de pesquisas que a gente fazia. Então, temos essa série de papéis avulsos e, agora, a gente tem publicações online, como a revista "Z Cultural”, atualizada - ela é quadrimestral. Começamos a fechar os números e a colocar no ar, fica mais ágil, tem mais visitação.

Fora as pesquisas, temos um programa de pós-doutorado, que eu acho que é o único da UFRJ, e que tem uma demanda altíssima. Você vê a carência do intelectual. O intelectual é uma figura muito triste, né? Porque ou briga ou não tem com quem conversar, é esquisito, é verdade. Então fizemos esse programa de pós-doutorado que é assim: o interessado se inscreve, a gente vê se o assunto está na nossa agenda e, se aceito, fazemos encontros uma vez por mês ou a cada quinze dias, dependendo da própria dinâmica do grupo. Sentamos e discutimos o trabalho que cada um está fazendo. Todo mundo dá palpite no trabalho de todo mundo. Então, o pós-doutorado é um grupo que discute, que se auto-ajuda digamos, e é muito legal. Temos procurado pegar gente muito diferente, tem gente de Direito, de Engenharia de Produção da Coppe, da Letras, tem artistas, escritor residente. É múltiplo, então é uma maravilha, tem especialista em meio ambiente que, em princípio, eu não saberia orientar, porque não é o caso; mas é o caso de conduzir questões, debates e troca, que quanto mais diferente é a disciplina, mais interessante fica. O Sidney Guerra, de Direito, por exemplo, que é professor da Escola de Direito da UFRJ, foi realmente muito massacrado. Ele abria a boca, todo mundo queria resolver o problema do seu aluguel, do seu “não sei que lá”, virou quase um assistencialismo, era um grupo que precisava de advogado. Mas foi muito legal, porque a pesquisa dele era sobre direito à privacidade, que é um assunto que diz respeito a qualquer área da cultura, isso é geral. Então esquentam muito esses inputs, não só disciplinares, mas, repito, de outras esferas da sociedade, que não têm título de doutor, nem de mestre, nem mesmo de graduação, mas traz um saber sólido, que a gente não tem acesso.

FCC - Como essas pessoas, os não doutores ou mestres, podem procurar o PACC?               
HBH - Elas vêm naturalmente. Também convidamos várias pessoas. A gente trabalha muito a periferia, os projetos culturais da periferia. No próprio contato, a gente convida para assistir ao curso. Com isso, nosso curso é povoado de todo esse povo, além das pessoas das agências. Você vai convidando e as pessoas vão vindo, vão se chegando, e então é uma troca legal. Esse projeto de pós-doutorado, junto com a documentação, eu acho que são as nossas coisas mais originais. Fora isso, temos pesquisa, grupos de pesquisa, e agora tem um novo, que está ‘bombando’, que é o Núcleo de Estudos Carnavalescos. Eu também acho que não tem muitos lugares assim, que consigam agregar muito estudo sobre o carnaval, e é do professor Frederico de Góis, da Letras. Ele fez o pós-doutorado com a gente e armou esse núcleo aqui. É um núcleo meio bombástico, o último seminário que ele fez ninguém nem conseguia entrar, porque vem todo o povo das escolas de samba, vem todo mundo, é muito legal. E tem o Vitor Melo, de esportes, que faz a mesma coisa com o futebol. Fala muito de esporte e lazer. O PACC, além da área social, que é o nosso forte, tem outras áreas que eu considero um pouquinho abandonadas pela Academia.

FCC – Qual a relação da Universidade com a sociedade? De que forma os Estudos Culturais, desenvolvidos pelo PACC, interferem no cotidiano?
HBH - Eu não poderia falar sobre a relação da Universidade com a sociedade, porque a UFRJ é enorme, e eu conheço um décimo dela. Eu sei que por todo lado está ‘pipocando’ projetos, há experiências, tentativas de se chegar lá. O nosso caso é o projeto específico do PACC, que é sair dos muros da Universidade, não é levar conhecimento a outro lugar, é receber conhecimento de outros lugares. É uma coisa diferente, a gente não vai à favela para dar um upgrade no saber deles, a gente fica bem aqui e pede, pelo amor de Deus, para eles virem ensinar o que é favela, porque a gente, literalmente, não sabe. Há uma troca, e pagamos esse conhecimento com o nosso. Então é uma relação de mão dupla muito forte. Agora eu sei que na Universidade tem uma porção de ações sendo feitas. A ação do PACC é muito focada no debate, na produção de conhecimento, e os Estudos Culturais foram a área disciplinar que a gente elegeu, porque contém isso, quer dizer, Estudos Culturais é uma quase disciplina. Ela mistura um pouco de todas, e produz resultado, quer dizer, a idéia é interferir na sociedade mesmo, é dar subsídios para políticas públicas,  dar subsídios para políticas de museus, para políticas culturais, é interferir nas políticas de tecnologia de ponta, que agora o ‘bicho ta comendo’, com a entrada da tevê digital. Que conteúdo é esse, que espectro é esse e quem vai ficar com esse bolo? E então, é um pouco interferir no curso dos debates que estão por ai: essa é a idéia maior dos Estudos Culturais, disciplina criada na Inglaterra nos anos 50, exatamente no meio de uma guerra para deixar o operariado ingressar na universidade; então ele tem esse DNA político desde o nascimento. Você apronta, produz para poder interferir, para poder funcionar como intervenção mesmo.

FCC – A Universidade começa a se mobilizar, a fim de pensar um programa de política cultural. Hoje, a UFRJ tem diversos programas de cultura espalhados e sem conexão uns com os outros. Na sua opinião, o que muda com a implantação de uma política institucional?
HBH - Eu acho que é bem legal que tenha uma política cultural da Universidade, porque isso é meio inédito, mas, para falar a verdade, eu tenho um pouquinho de medo que ela seja única. Aparece muita coisa por ai, em cada canto que você chega. No IFCS, por exemplo, você conversa com três meninos, eles estão inventando uma coisa genial, você chega na Biologia eles estão preocupados em intervir com a coisa do meio ambiente, têm lá suas soluções. Aqui no PACC, o que eu faço é ser um guarda-chuva, abrigo quem traz uma idéia. Eu tenho medo de ter uma política cultural, porque as demandas são tantas e as soluções que estão aparecendo são muito originais. Se você der uma passadinha pela periferia vai perceber que as idéias são sensacionais. Por exemplo, agora estou fazendo um livro da CoopaRoca - Cooperativa de Artesãs da Rocinha. Elas são empresárias, são formadas como empresárias, não é tecelagem, não é artesanato. Elas sabem vender aqueles produtos. O treinamento é todo para elas serem empresárias, é o empreendedorismo engajado. É completamente diferente de ficar apreciando o know-how adorável do patch work, do nozinho, do ‘não sei quê’. Então, você vê cada sugestão!

 Eu sou de uma geração dos anos 60, em que a gente era reativo, era contra tudo. Acho que nos meus 18, 19 anos eu era, literalmente, contra tudo. A impressão é de que não tinha nada que eu fosse a favor; você reagia, reagia, reagia e pouco fizemos, entendeu? O que eu vejo, agora, é uma geração pró-ativa. As pessoas reclamam pouco e fazem sem parar. No Fashion Week de São Paulo, por exemplo, a moda do Afro Reggae estava lá e aquela é a roupa que eles usam na favela. Não tinha um dedinho do Marcelo Sommer, figurinista produtor do evento. É bermudão, mesmo, e com o grafitado atrás. E eles estavam lá no meio do evento de moda, um dos mais impactantes, quer dizer, que vende muito. As cifras que passam pelo Fashion Rio e pelo Fashion Week / São Paulo são altíssimas, e eles venderam aquela coleção pra fora, eles estão vendendo know-how. Eu sei que o Junior, do Afro Reggae, estava saindo para vender know-how de gerência, de gestão de conflito para a Colômbia e a Alemanha. Então, para inventar uma política cultural eu fico tímida, porque acho que tem tanta gente melhor que a gente inventando isso. O negócio é dar viabilidade, dar interlocução, é botar esse povo junto.

FCC – Isso é uma resposta ao movimento de resistência dos anos 60?
HBH - Eu acho que sim, eu acho que sim. Acho que você tem que identificar esses focos pró-ativos, que são milhares. E pró-ativo é pró-ativo mesmo: “Nós não temos tempo a perder, eu quero formar minha comunidade, melhorar minha comunidade, eu vou melhorar; o governo não tá com nada, ninguém vai me ajudar mesmo, eu vou”. E vai, né?  

FCC – E aí, como fica a questão da indústria cultural? Há iniciativas em comunidades, na área do cinema, por exemplo, em que produtores e autores locais reconstroem a vida das pessoas comuns das favelas. Qual é a repercussão disso, como a indústria cultural vem reagindo?
HBH - Eu acho que, o que está acontecendo é que a indústria cultural está absorvendo isso, quer dizer, eles estão arranjando emprego, está gerando emprego. A Globo está aproveitando, acho que 60% dos garotos do “Nós no Morro”, que tem uma formação de ator muito profissionalizada. Isso gera emprego, esses meninos jamais iriam arranjar emprego. Acho que a indústria cultural está aproveitando bem. Faz uma demagogia, um marketing social, não interessa a ‘malandragem’ que a Globo vai fazer. O que interessa é que a gente está avançando, que as pessoas estão conseguindo um status melhor, uma condição de vida melhor, geração de renda, enfim, estão atacando um mercado fechado.

FCC – E como você vê o Forum de Ciência e Cultura da UFRJ, o que falta para se tornar referência de produção cultural da Universidade?
HBH - Sabe o que eu acho do Forum? Eu acho o Forum um lugar belíssimo. Eu trabalhei com o Pinguelli na época em que a gente reformou o prédio, lembro da gente fazendo aquela obra com muito cuidado. Ficou um lugar muito propício e acho que a cenografia pede que seja ocupado, porque ela é muito nobre, muito linda, é inspiradora. E eu acho que o Forum deveria ser um lugar de produção de conhecimento, mais do que produção de cultura, porque produção de cultura a gente tem muito. Quer dizer, a diferença entre conhecimento e cultura é quase zerada, mas o que eu digo é que seria um lugar onde a Universidade pudesse se encontrar com a sociedade para discutir. Pra mim, isso seria um grande Forum.

FCC – De que forma o Forum poderia se encontrar com a sociedade?
HBH – Assim, fazendo grandes debates. Eu fico com medo de falar o que a Universidade faz com a sociedade, porque sei que faz muita coisa: pequena, tópica, dispersa nos lugares. Se o Forum pudesse juntar essas coisas em grandes debates e com infra-estrutura total, como ar condicionado no Salão Pedro Calmon, data show, coisas que pudessem abrigar grandes conferências, aí você poderia realizar o seminário A, B, C e Z e discutir a sociedade ali, naquele fórum, que é um pouco isso: o Forum é a ONU da UFRJ. Poderia ser um lugar onde as pessoas pudessem discutir os grandes problemas sociais, com todos os atores. Acho que isso seria produzir um conhecimento novo. Acho que isso seria uma função bem bacana para o Forum, mais do que fazer uma animação cultural, fazer acontecer várias coisas pontuais da cultura. E dali sairiam milhares de eventos culturais. Acho que o Forum é a segunda reitoria, é a reitoria B, digamos, tem que se comportar como reitoria B, tem que abrigar, antes de mais nada, a produção de conhecimento e o pensamento da UFRJ. Mas o pensamento da UFRJ não pode ser só de professores. Tem que abrigar a sociedade civil, evidente, falando também, profissionais liberais, o resto todo. Tem vários segmentos, esses segmentos se encontrando no Forum, assim, num tipo de debate permanente, seria um sonho dourado, para mim, pelo menos.

FCC – Qual a relação entre política e cultura?
HBH - Eu acho que essa relação é visceral, acho que fazer política é fazer cultura e vice-versa, e no momento está ficando cada vez mais perto, porque queiramos ou não, a cultura é a segunda economia emergente. Se já houve alguma separação foi num tempo de mecenato, num tempo em que a cultura não estava muito ligada ao mercado. Cultura é quem dá emprego, é quem mais gera renda. Em Nova York, ela é a economia que sustenta o estado. Em vários outros lugares, mesmo no Brasil, ela já subiu de ranking ‘loucamente’. Então é um mercado potencial muito grande, e que deve ter uma política para poder ser, minimamente, democrático, senão as multinacionais vêm e engolem esse mercado, que é potencialmente muito promissor, muito novo. A cultura nunca foi vista como um fator decisivo para economia nenhuma; nesse momento está sendo. A cultura é um pedaço significativo da economia, e tem que ser de todo mundo, não pode ser da TV Globo, por mais que eu ligue a TV Globo, diariamente, e fique pendurada no “Paraíso Tropical”, porque fico, mas, fora isso, acho que tem que se dividir esse bolo, e precisa de muita política para poder democratizar o acesso, o consumo e a produção da cultura. Então, acho que se sempre houve uma relação entre política e cultura, agora não tem como correr, agora uma é a outra e a outra é a uma, não tem conversa.
 
FCC – Num cenário de mundo globalizado, o que pode ser feito para preservar a cultura local sem fechar fronteiras? É desejável que haja essa preservação?
HBH - Olha, eu acho que preservar não dá, esses casos, por exemplo, como o Jongo da Serrinha etc., que são núcleos que valorizam a tradição, que se fazem da tradição, e mesmo eles não estão preservados. Mesmo eles estão em contínuo movimento. É complicada essa coisa da idéia de preservação muito rígida. Mas a idéia da cultura local num mercado global, se não for muito reforçada, você não vende nada. A moeda para entrar no mercado global é a cultura local. É através de uma coisa com jeito brasileiro, com linguagem brasileira, com dicção brasileira, com um input brasileiro, que você vai conseguir entrar no mercado global. Imitando Hollywood é que não vai, porque vai ser um filme “C”. Então, eu acho que cada vez que se abre mais esse mercado global, o potencial local é mais valorizado do ponto de vista cultural. Isso não há dúvida nenhuma, e não é à toa que você vê essas localidades se reforçando muito mais hoje do que há 20 anos atrás.          

FCC – As novas tecnologias vêm desenvolvendo um amplo mundo de comunicação. Que estudos teóricos são trabalhados para dar conta dessa diversidade, sem perder de vista o indivíduo?
HBH - No momento o avanço tecnológico é galopante, porque nem os computadores estão dando conta, os softwares já não cabem mais; no dia seguinte, já está tudo descartável. Quer dizer, no momento a aceleração é controlada porque as empresas não deixam avançar, senão esse avanço tecnológico seria diário. E avanço que eu digo, é em todos os sentidos, o avanço no próprio processo de criação tecnológica, avanço para dentro da gente, da vida da gente, da casa da gente, da experiência social de cada um de nós. Quer dizer, quando você vê esse avanço de tecnologia assim, dá um certo medo - como sempre acontece com algo novo - que você possa perder a individualidade, que você possa perder segmentos construídos e ficar excluído. Mas não é isso que a gente está vendo. Acho que quando a tecnologia chegar perto de comunidades carentes, por exemplo, ela explode, ela é uma arma, é uma bomba. Realmente, ela potencializada, vai longe. Você vê que todos esses movimentos culturais estão fundamentalmente ligados, estruturados, em cima de tecnologia, mesmo coisas como “Nós do Morro” que vai para o cinema, tudo isso é internet, é conexão, a coisa é fundamental. Na nossa aula, por exemplo, teve a apresentação de um trabalho sobre tecno-brega, que é uma nova forma de fazer negócios, open business, quer dizer, você já não ganha mais com CD, a pirataria já nem conta, cada um faz seu CD e trabalha com altos efeitos tecnológicos, isso em Belém do Pará, não estou falando de São Paulo. Então, acho que o que vai fortalecer o indivíduo pode ser que seja a tecnologia, ao contrário do que uma lógica qualquer pudesse levar a crer.

     
 

Publicado em: 11/07/2007